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Tempos “ainda” Modernos

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“Tempos Modernos” (Modern Times, no original), de 1936, faz rir, mas não é uma simples comédia. O filme, escrito, dirigido e protagonizado pelo gênio britânico Charles Chaplin, é lembrado até hoje por suas cenas hilárias, mas também pela forma aguda com que interpreta a realidade vivida pelos EUA da década de 30 – e também por todos os países em processo de industrialização. Chaplin discorre sobre a sociedade industrial, o fordismo, o trabalho alienado e o processo de “coisificação” do ser humano, amparado pela obra do sociólogo alemão Karl Marx.
“Uma história da indústria, do empreendedorismo individual – a cruzada humana em busca da felicidade” (“A story of industry, of individual enterprise – humanity crusading in the pursuit of happiness”). Com essa frase o filme começou, evocando uma reflexão de que não estamos diante de uma simples comédia, e sim de um pensamento complexo traduzido através da comédia. Chaplin, assim como fizeram outros grandes gênios da arte (como Beethoven e Tom Jobim), demonstra assim que não existe uma oposição entre simplicidade e conteúdo, entre apelo popular e profundidade.
Já nas primeiras cenas do filme, há uma sobreposição de imagens: um rebanho de ovelhas é sobreposto pela imagem de um grupo de trabalhadores saindo de uma estação de metrô e se dirigindo as industrias. Da mesma forma como as ovelhas são animais famosos pela docilidade, os trabalhadores também o são, obedecendo de forma doce e pacifica as estruturas hierárquicas da sociedade industrial.
Pode-se lembrar também que a ovelha é um animal recorrente na tradição judaico-cristã, lembrada como um animal que tem estreita ligação com Deus. Não raro, líderes religiosos referem-se a seus fiéis como “rebanho”, ou “ovelhas”. Então ouso dizer aqui, que Chaplin nos propõe um questionamento: seria o mercado uma divindade, e os trabalhadores, seus fiéis?
Dando continuidade, ao longo do filme, Carlitos– Chaplin – conhece uma órfã, e passa a ser uma espécie de tutor dela. Eles mudam-se para uma velha casa abandonada, literalmente caindo aos pedaços. No entanto, a despeito da condição lamentável da nova moradia, eles são felizes por tê-la. Àqueles que nada tem, um mínimo é muito. É a velha lógica do “pão e circo”, praticada desde o Império Romano.
Uma cena que merece especial destaque, pelo alto teor crítico ali contido, passa-se numa loja de departamentos, onde Carlitos ( Chaplin ) conseguiu um emprego como vigia noturno. Ele leva sua companheira até lá, para que lhe faça companhia durante a noite, e ali, naquele paraíso de consumo, eles mostram-se extremamente felizes. A lógica capitalista “coisifca” até mesmo as emoções humanas: a felicidade é personificada em mercadorias. A felicidade pode ser comprada. E ainda nessa cena, a loja de departamentos é invadida por ladrões. Um deles é um antigo companheiro de trabalho de Carlitos. Agora desempregado, ele não tem alternativa senão roubar para sobreviver.
Chaplin nos faz questionar as causas da criminalidade nos grandes centros urbanos. Não seriam os criminosos aqueles que foram excluídos pelo sistema vigente? Que alternativa eles poderiam ter, se ninguém lhes dá outra oportunidade? Claro com o crescente avanço da especialização em quase todos os seguimentos da época, as chances de emprego extinguiam-se automaticamente.Chaplin é claro: em sua visão, a criminalidade é reflexo da exclusão social.

Um detalhe que chama a atenção em Tempos Modernos, é o fato de ser um filme majoritariamente mudo, mesmo tendo sido produzido numa época em que os filmes falados já eram produzidos em larga escala. No entanto, a opção de Chaplin por um filme quase mudo tem sua razão de ser. Ao longo do filme, há alguns momentos em que há falas. E há algo de comum entre eles: são sempre momentos em que há uma máquina falando. Um rádio, uma televisão, uma gravação qualquer. Os seres humanos não têm voz. As máquinas sim.
Isto posto, impressiona notar que atualmente, mais de 70 anos após a filmagem de Tempos Modernos, essa questão da máquina falar no lugar do homem esteja mais presente do que nunca.Afinal, nossa sociedade fala através de telefones, através de computadores, através de todo tipo de máquina, mas falamos cada vez menos pessoalmente. Longe de ser absurdo, vivemos em tempos “ainda” modernos, perpassando e cumprindo a mesma lógica ( vivida no filme ) de auto-prisionamento através do contínuo aumento das especializações/novas tecnologias.
A ligação com a máquina (fetiche do capital) é tão grande que o trabalhador industrial passa a ser parte dela. Tanto que Carlitos é engolido por ela e, após um dia estressante dia de trabalho é imbuído pela loucura. Um exemplo de controle total do capitalista sobre o funcionário é a tentativa de utilização da Máquina Alimentadora. O mecanismo é anunciado por um vendedor mecânico (a máquina substitui o vendedor humano!) como “um artefato prático para alimentar seus empregados enquanto trabalham”. Assim, procura-se eliminar os tempos mortos da produção tal como concebe a teoria taylorista. A tentativa é desastrosa.
O processo de industrialização frenético somado à sua desenfreada especialização gera um sentimento de inadequação de Carlitos com a realidade, se estendendo as outras atividades exercidas pelo personagem (não muito diferente dos dias atuais). Logo após sair da prisão, ele procurou outro emprego: conseguiu em um estaleiro naval. Esforça-se em seguir as ordens de um superior: procurar um pedaço de madeira que fosse parecido com o que ele tinha em suas mãos. Depois de explorar um pouco o terreno finalmente o encontra. Mas é nesse ponto que ocorre a confusão. Por ainda estar ambientado com a fábrica, não percebe as diversas utilizações possíveis do material madeira, haja vista que devido à especialização de seu trabalho, somente consegue apreender um uso para mesma. No caso, a madeira que achou – dentre as várias funções possíveis para ela – servia como trava para o navio ainda em construção. O navio para seu desespero desliza e afunda por completo no lago. Os demais funcionários observam a cena estarrecidos. Carlitos envergonhado decide voltar para a prisão por se sentir inadaptado para aquela realidade.
Devido a esse estranhamento constante, o personagem Carlitos não consegue permanecer por muito tempo no mesmo emprego. Como um artista circense que foi desde a infância, Carlitos se desdobra em funções que vão desde operário da indústria, passando por vigia de loja de departamento e auxiliar de manutenção de máquinas até garçom e showman em um bar à noite. Carlitos teve vários empregos, porém não permaneceu atrelado a eles simultaneamente. O personagem de Chaplin não teve várias ocupações com o objetivo de tentar completar sua renda mensal ou semanal, mas sim devido à sua inadaptação ao serviço. A mudança de emprego é constante. Portanto, a questão é o estranhamento e não a flexibilização do mundo do trabalho. A constante sensação de estranhamento com relação à sociedade é o elemento central da tragicomicidade da película. Tanto no ambiente de trabalho quanto em seu cotidiano sempre há um desajuste à realidade.
O trabalho ali – no filme – consiste tão somente em apertar parafusos. Desta forma, já pode-se notar a influência marxista nesse filme: o trabalho é mostrado como algo mecânico, alienante, desprovido de qualquer sentido ou liberdade criativa. Os trabalhadores nem sequer sabem o que aquela linha de montagem fabrica. Sua função é apenas apertar parafusos. Ou seja: não há qualquer sentido, qualquer prazer naquele trabalho. O trabalho, que segundo Marx deveria ser fonte de realização para os seres humanos, transforma-se em uma atividade alienante, tediosa, penosa; e isso fica explicito em uma fala do vagabundo: “Teremos uma casa, nem que eu tenha que trabalhar por ela!”. O trabalho é colocado como algo terrível, do qual sempre se deseja fugir. No máximo, é um mal necessário, um meio de se alcançar as coisas que se deseja, e assim alcançar a felicidade, mas nunca uma fonte de felicidade por si só.
Outros exemplos da visão marxista que Chaplin expressa nesse filme, podem ser vistos em cenas como a que Carlitos passar a apertar os botões das roupas das pessoas, da mesma forma como aperta os parafusos na linha de montagem. Seu trabalho é tão mecânico, tão impassível de questionamento ou criatividade, que o trabalhador torna-se uma simples máquina, incapaz de discernir, incapaz de pensar.
No decorrer dessa cena, o vagabundo/Carlitos persegue uma mulher, disposto a apertar os botões de sua roupa. Ela, fugindo, encontra um policial, que passa a perseguir o Vagabundo. Ele, ao tentar fugir, busca abrigo na fábrica em que trabalha. Mesmo em fuga, ao passar pelo relógio de ponto, ele não deixa de bater o cartão. Nenhuma emoção humana é mais forte do que as rígidas e mecânicas normas do trabalho. Ou seja: antes que um homem, o trabalhador é uma máquina, restrita a condutas, códigos e horários pré-estabelecidos.
O filme focaliza a vida do homem na sociedade industrial caracterizada pela produção com base no sistema de linha de montagem e cada vez mais de especialização do trabalho. É uma crítica à “modernidade” e ao capitalismo representado pelo modelo de industrialização, onde o operário é engolido pelo poder do capital e perseguido por suas idéias e adversidades. Tratando também das desigualdades entre a vida dos ricos e das camadas mais desfavorecidas, sem representar, contudo, diferenças nas perspectivas de vida de cada grupo, mostra ainda que a mesma sociedade capitalista que explora o proletariado, alimenta todo conforto e diversão para burguesia.
O ambiente fabril nos traz muitas informações sobre os elementos constitutivos do modo de produção capitalista e da sociedade norte-americana da época. A linha de montagem fordista com sua extrema especialização produz partes de mercadorias não-identificadas — Chaplin não nos deixa saber o que está sendo produzido. Somente sabemos que é uma fábrica de componentes elétricos. O trabalhador perde a noção total de produto dada à divisão de tarefas. Desse modo, o trabalho ganha caráter abstrato.
Em suma, a Grande Depressão no EUA delineou um quadro de mazelas sócio-econômicas traduzido no desmoronamento das esperanças e no desespero pela sobrevivência, sobretudo das camadas mais baixas da população que encarou fome, superpopulação, desnutrição e doenças. E esse filme se reporta às péssimas condições de trabalho — as árduas horas de trabalho e o desempenhar repetitivo do apertar parafusos e puxar de alavancas — decorrente da maior especialização da linha de produção fordista. Com tal divisão de tarefas não é mais permitido ao trabalhador saber o que afinal estava produzindo: como o trabalhador não participa das demais etapas do processo produtivo ele perde a noção total de produto. Tanto que para expressar esse fenômeno, parece que Chaplin não nos deixa saber que produto a indústria no filme está produzindo.
A cena em que o funcionário mais antigo fica preso nas engrenagens pode demonstrar que o novo capitalismo marcado pelo taylorismo-fordismo suplantara o sistema de produção artesanal. Pode-se ousar dizer que as características do fordismo ainda estão presentes no mundo atual. O estilo de McDonald’s, por exemplo, com a homogeneidade dos produtos, a rigidez das tecnologias, as rotinas padronizadas de trabalho, a desqualificação, a homogeneização da mão-de-obra (e do freguês), o trabalhador em massa e a homogeneização do consumo. Nestes e em outros aspectos, o fordismo continua vivo e forte no mundo moderno.
Nesse sentido, imaginarmos num período entre guerras, onde o Velho Continente vivia uma época de desemprego, estagnação e incertezas. Onde os EUA encarava os efeitos da Grande Depressão de 1929: economia em recessão, fábricas fechadas, alto índice de desemprego, pobreza em franco crescimento. Tudo isso ao mesmo tempo em que a indústria mostrava um nível de automação jamais vista, o que fazia com que uma máquina conseguisse reproduzir o trabalho de milhares de artesãos. Imaginarmos diante de tantas mazelas sociais e de um salto evolutivo tecnológico ( pra época ) incrivelmente surpreendedor, e adaptar-se ao advento das especializações da sociedade puramente capitalista ( sem quaisquer qualificação profissional ), não era pra qualquer um.Tempos Modernos, último filme mudo produzido por Charles Chaplin parece soar atual.
Enfim, hoje assim como outrora, uma sociedade marcada pela complexidade, onde os indivíduos são regrados pelos segundos precisos do relógio, o ser humano não passa de peças, de meramente marionetes controláveis por um colossal sistema capitalista. O personagem Carlitos interpretado por Chaplin, em sua faceta de trabalhador industrial conseguiu conquistar o mundo com sua simplicidade de traduzir e sintetizar como ninguém os fenômenos marcantes da grande depressão, o período histórico marcado pelo desemprego em massa, queda acentuada do produto interno bruto em decorrência do declínio da produção industrial e dos preços das ações subseqüente à quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Sem sombra de dúvida, com este longa, Chaplin converteu-se em um dos maiores gênios do cinema de todos os tempos – sejam eles modernos ou não!

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