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Olavo Bilac há de perdoar minha colega de quarto, mas ela recitou o poema “Via Láctea” de cabo a rabo naquele dia – e ela dizia que não se lembrava dele de cor! Acho que a dor ativou neurônios que estavam dormindo, só pode. Coitada… Mas eu avisei a ela que ela tomava pouca água, falei um monte de vezes e nada dela acreditar. Tá aí o resultado. Passou pouco mais de um ano e veio a prova do que eu falei tanto pra ela.

Maria Clara era a magreleza em pessoa. E não era por falta de comer! Quando íamos almoçar juntas no restaurante universitário, ela quase acabava com o arroz de uma das fundas. Feijão, então, mal dava pra uma refeição só. Carne ela só não comia mais porque a moça do refeitório não deixava. Ela não era muito de salada, mas comia a que tinha. Quando tinha suco, ela tomava, mas quando era só água, ela negava. “Não gosto de água”, ela dizia. “Só se eu estiver quase morrendo de sede”. E era assim todo dia – e o dia todo, aliás. Ela não tomava líquido algum, além do café com leite de manhã, do suco eventual na hora do almoço e do suco eventual na janta. No mais? Só um refrigerante de vez em quando, um picolé… o resto era a água que tivesse nos alimentos. Quase não ia ao banheiro. O resultado veio logo: uma bela pedra num dos rins e uma overdose de neozine.

O susto

Um belo dia, no meio de uma aula chatíssima de Física II no meio da tarde, Maria Clara começou a suar. Não estranhei no começo, porque ela tinha comido demais e o dia estava quente (pensei que fosse indigestão). Mas aí ela começou a ficar pálida e a cravar as unhas na carteira – e ela é do tipo que não estraga as unhas nem pra salvar a própria vida. Aí sim eu estranhei. “Maria, o que foi?” “Véi, tá doendo demais… tá doendo demais…” E colocou a mão na lateral esquerda das costas. Pronto. Era o rim. Passei a mão no celular ali mesmo, no meio da aula, e liguei pro serviço de saúde da universidade, que tinha uma pequena ambulância. O pessoal todo assustou e o professor ficou com os olhos arregalados. A ambulância chegou em três minutos, mas pareciam três horas pra Maria Clara, que gemia sem parar, e recitou o poema de Olavo Bilac inteiro sem gaguejar. Credo, devia estar doendo MESMO!

Logo estávamos na divisão de saúde, e lá aplicaram aquele coquetel clássico para cortar a dor, mas ela não passou. Aí deram um remédio mais forte, que não resolveu de tudo mas melhorou um pouco. Acharam melhor ela ir para um hospital. De lá mesmo, ligaram para a Santa Casa e encaminharam Maria Clara imediatamente. Fui junto, apesar de ter pavor de hospital. Chegando lá, ela foi levada para exames e, no ultrassom, descobriram que a pedra não era muito grande e que poderia ser expelida naturalmente – não sem dor, óbvio. Mas como não era caso com indicação pra cirurgia nem internação, prescreveram neozine e deram alta pra ela.

Outro susto

Naquele dia ela não voltou mais à sala de aula, porque ficou exausta. É… dor forte cansa mesmo! Tadinha… Mas como ela estava melhor e me garantiu que tava tudo bem, voltei pro pavilhão de aulas. Naquele dia as aulas iam até perto das 8h da noite, então saí de lá direto para o refeitório, jantei e só então, quase 9 horas, cheguei no quarto. Estava uma gritaria lá dentro que dava pra ouvir do corredor – e quando ouvi, saí correndo pra ver o que era, largando tudo no chão. Eram as outras duas meninas que dividiam o quarto conosco e mais várias outras de quartos vizinhos ao nosso (e ainda tava chegando mais gente). Maria Clara estava inconsciente na cama, branca feito as paredes, sem reação e com a pele fria. As meninas em volta dando tapas no rosto dela e berrando, mandando ela acordar, chorando, desesperadas. Tive que empurrar umas quatro dali pra chegar até Maria Clara, que estava respirando fraquinho, mas estava viva. Olhei para o criado mudo e vi que o neozine estava aberto – e que faltavam três pílulas. “Meu Deus do céu, ela tomou três??”

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“Rita, para de gritar e chama o porteiro aqui. Flavinha, liga pra divisão de saúde e pede pra mandarem uma ambulância pra cá AGORA, e fala que é overdose de remédio pra dor, a gente tem que levar Maria pro hospital.” Mas Flavinha estava tão nervosa que não conseguia nem tirar o celular da bolsa. Uma menina do outro quarto acabou fazendo isso. Enquanto isso, eu enrolava Maria Clara num cobertor grosso pra tentar aquecê-la. Acho que mexi muito com ela e ela deu uma acordada rápida, e balbuciou: “… tava doendo…”. E desmaiou de novo. Bom… pelo menos agora eu sabia que não era tentativa de suicídio. Mas também… se fosse ela teria tomado a cartela inteira.

No hospital, ela repetiu o ultrassom e viram que a pedra tinha se deslocado e entalado no ureter, fazendo o rim dilatar – e isso doooooói demais. Ela precisou ficar internada pra fazer lavagem gástrica e desintoxicar. Três dias de CTI, muito remédio e cirurgia pra tirar a pedrinha trapalhona.

Hoje, Maria Clara é a maior bebedora de água que eu conheço.

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