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Sou um poste de iluminação pública. Nenhuma dúvida sobre minha constituição e aparência: feito de concreto, retilíneo, mais largo na base que no topo, oco, cinzento. Utilidade, incontestável: suporto fios. No meu caso, talvez por me julgarem mais forte ou – deixando essa pretensão besta de lado – por puro acaso, ainda sustento um transformador que, quando explode, por conta da carga excessiva, dá a medida de minha importância por causa da escuridão que se estabelece numa área à volta, que gosto de imaginar como sendo de muitos e muitos quarteirões.
Lá em cima, a lâmpada que também sustento, tem igualmente grande utilidade, sobretudo nos dias de hoje, tempos da violência corriqueira, sempre facilitada pela escuridão.
Porém, caros e enlouquecidos leitores – capazes de prestar atenção nas reflexões de um poste – sobre o que reflito? Pois saibam que não é sobre meu orgulho pela utilidade, mas sobre minha vergonha.
Sim, vergonha. Envergonho-me por estar ridiculamente coberto pela malfadada propaganda eleitoral!
Minha superfície rígida, ereta e com o acinzentado coberto aqui e ali por manchas de mofo, por marcas deixadas pelas intempéries, testemunhas de tantos anos de serviço prestado – de que me envaideço – está envolvida por cartazes e estandartes de um ridículo atroz.
Num cartaz de péssimo gosto, um gordo careca, com ares nada honestos, mostra sua cara, que mais parece um estereótipo de crápula, encimada pela frase eivada de hipocrisia: ‘Honestidade acima de tudo’.
Logo abaixo, um estandarte exibe a foto de uma falsa loura com ares mais freqüentemente vistos em dona de lupanar, com uma mensagem em que invoca em vão o nome do Senhor dos cristãos para avalizar suas pretensões eleitoreiras.
Dependurados em mim há, ainda, retratos de jovens quase imberbes e desconfortavelmente engravatados, apregoando a ‘renovação na política’.
Exibo, em minha triste sina, até a propaganda de um candidato cuja ‘cara-de-pau’ é tanta que, enquanto emporcalha as ruas, com panfletagem de mau gosto, apresenta-se em sua sem-cerimônia como o candidato defensor da ecologia! Piores que tudo são agora as minhas madrugadas. Antes elas eram tranqüilas, e eu ficava daqui de minha esquina brincando de imaginar que a luzinha posta lá na parte de cima de mim poderia rivalizar com o brilho intenso e mágico do luar na superfície da água do mar, que chega aqui bem próximo, logo do outro lado da rua.
Agora, essa paz acabou. A cada noite, revezando-se, lá vêm os cabos eleitorais bem ou mal pagos do candidato tal ou qual. Chegam, às vezes raivosos e furibundos, e arrancam a propaganda dos adversários, numa demonstração inequívoca de um barbarismo que ignora solenemente as regras democráticas.
Jogam escadas toscas sobre mim e, encarapitados lá em cima, rasgam cartazes, destroem galhardetes, arrancam faixas – e ainda gritam uns com os outros, às vezes gargalhando, chafurdados na própria ignorância e interrompendo o sono dos vizinhos.
Quando se vão, a sujeira fica pelo chão. Vandalismo feito, resta a porcaria deixada na calçada e outras porcarias dependuradas em mim, até a noite seguinte, quando virão outros vândalos, outros bárbaros, falsos heróis na guerra sem fronteiras e sem tréguas da política em seu mais baixo nível. E estes que aqui vêm são apenas os soldados rasos da infantaria dos inconseqüentes; estão aí, salvo uma ou outra manifestação ideológica ensandecida e radical, apenas para ganhar algum, em mais um sub-emprego. Por detrás, uma chusma de candidatos oportunistas: alguns iniciantes nessa seara e já tentando chegar ao poder por caminhos mal traçados; outros, velhos reincidentes, verdadeiros profissionais da arte de ludibriar e de fazer promessas vãs e inconseqüentes, que esquecerão no minuto seguinte em que forem bafejados pelas urnas cheias com os votos de bem-intencionados e iludidos eleitores.
Um poste. Sou somente um poste. Nostálgico de tempos em que havia, debaixo de minha luz, antes mortiça e amarelada, apenas jovens das redondezas – alguns talvez em suas primeiras saídas à noite – contando vantagens e mentiras sobre as reais e imaginárias namoradinhas, também moradoras das redondezas. Estas, muitas delas eu conhecia e as reconhecia pelos nomes, enquanto riam e deixavam que seus lulus molhassem minha superfície com a urina quentinha e nem tão mal cheirosa dos cães bem tratados.
Apenas um poste sou eu, saudoso da época em que a única transgressão em que me envolviam era a quase inocente exibição do resultado do jogo do bicho, tendo em volta de mim os esperançosos que haviam gastado uns trocados fazendo a fezinha do dia.
Uma última e suprema humilhação está contida na frase tão repetida: ‘Ele é um político tão bom em sua atuação que elegeria até… um poste’. Sei, cá em meu íntimo de cimento e pedra, no entanto sensível, o quanto de injustiça, maldade e sarcasmo a expressão contém.
Sofro. Mas o que mais me faz sofrer é a situação da velha árvore que fica defronte de mim. Enquanto minha argamassa de concreto resiste quase incólume às agressões, vejo entristecido minha velha amiga sangrar sua seiva a cada prego cravado sem dó nem piedade em seu belo tronco enrugado com a dignidade conferida pelo tempo. Se sou útil, ela é mais, com sua sombra benfazeja, com a galharia generosa que oferece aos passarinhos todo fim de tarde.
Aí está hoje minha velha e querida amiga. Parece uma idosa senhora, antes rica e agora decaída socialmente, a quem a vida obrigasse a andar andrajosamente vestida pelas ruas, coberta de trapos e de vergonha.
Só me resta iluminar um pouco sua copa, como um gesto de carinho e solidariedade.

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