Canário do Moirão

Canário do Moirão

Por volta do ano dois mil, mudou se para nossa rua um senhor por nome de Gerson, este senhor trabalhava como amolador de tesouras e alicates de unhas.

         Sua vida de começo ao chegar por aqui não foi fácil, muitas das de vezes ele me disse que estava ate passando necessidades, mas ia tocando a vida do jeito em que recebia.

Lembro-me que o que mais ele gostava era de ir ao salão de forrós finais de semana e também gostava muito de ter pássaros, como canários do reino, além de ter feito uma horta de verduras no quintal, e poucas galinhas em um separado, era então com esses passa tempo que ia vivendo.

Este senhor não tinha mais esposa, havia separado há anos atrás.

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Dizia-me ele que tinha filhos e estes moravam em São Paulo e por ter separado de sua família, sendo então ele de minha cidade resolveu terminar seus dias por aqui.

          A casa que o senhor Gerson residia era uma tapera, uma casa feita em mil novecentos e seis, ela tinha até o numero do ano modelado a cima da vidraça.

Esta casa sendo comprada por um senhor que era dentista, resolveu dar a casa para moradia do senhor Gerson que eram muito amigos.

Gerson trabalhava na rua de cima em um pequeno salão que também foi oferecido a ele por uma prima.

         À tarde depois do trabalho, Gerson tratava de seus canários e galinhas, além de irrigar a plantação de couve, almeirão e jiló.

Era essa vida do senhor Gerson, do trabalho para casa e sempre cuidando das aves e de sua hortinha.

         Em dois mil e dois, o senhor Gerson vai fazer uma pescaria com seus amigos e vizinhos, Luis e Henrique.

Na volta dessa pescaria o senhor Gerson vê em um buraco do moirão da porteira, uma ninhada de canários da terra, tendo ali quatro filhotinhos, todos já empenados, prontos para voar, mas o senhor Gerson nem pestanejou, trouxe os filhotes para cidade.

         Continuou criando os canários, sendo dois casais, com todo carinho e amor, bem no começo de dois mil e três, como o senhor Gerson trabalhava e deixava as gaiolas dos pássaros na varanda.

Neste dia formou se uma ventania forte trazendo em direção da varanda uma chuva muito violenta atingindo-as gaiolas de todos os canários, matando os, restando somente um, sendo o canário da terra.

         Por muito tempo o senhor Gerson ficou entristecido, com o acontecimento, mas ainda restava aquele sobrevivente da tempestade e aquele canário alegrava o com um cantar de arrepiar a alma.

Senhor Gerson resolveu então comprar uma canária para que o canário não ficasse sozinho.

         O interessante é que dizem que canário da terra não cruza com canária do reino, mas ali foi à prova que tudo é modificado, talvez por estar só, com pouquíssimo tempo de permanência juntos, uma ninhada da mistura entre reino e terra estavam voando em outras gaiolas.

         Com isso aumentava cada vez mais os canários do senhor Gerson, e ali era uma verdadeira orquestra de refino.

         As canções dos pássaros ressoavam por toda a vizinhança e que filarmônica para se ouvir.

Durante, seis anos o senhor Gerson manteve aqueles afazeres, canários, poucas galinhas e a pequena horta de couve, almeirão e jilós.

         Depois de tempos é que vim saber por que o senhor Gerson mantinha, as galinhas e a hortinha de verduras.

Ele me disse um dia que as galinhas eram para por ovos, para cozinhar pros canários e a horta de três verduras também era para alimentar os canários.

         Foi então que percebi que ele estava certíssimo, ovos, couve, almeirão e jiló são fortificantes para canários, principalmente do reino.

Ali naquele casarão tinha de fato alegria com o cantar dos pássaros, acho eu que por isso o senhor Gerson era de fato feliz.

Nem eu nem ninguém jamais ouvimos o senhor Gerson dizer que a vida era ruim ou triste, ele tinha sempre um sorriso estampado no rosto.

No ano de dois mil e nove o senhor Gerson começa então tossir muito e raspar com excesso a garganta, e a cada dia que passava a tosse e o aranhar da goela aumentava.

         Com os acontecimentos o senhor Gerson foi internado por duas vezes seguidas, o medico disse que ele deveria parar de fumar, pois poderia perder a vida a qualquer momento.

Vicio desgraçado, tinha ele fumado a vida toda, desde criança e agora não estava sendo fácil deixar o vicio, ainda sabendo que o cigarro estava por levar sua vida, mesmo assim continuava fumando, não muito como antes.

Bem pela manhazinha o raspar da garganta do senhor Gerson misturava com a balada dos canários e o cantar do galo.

Ele chegava até a sacada e dava um arranhão em sua goela, de onde retirava um catarro muito grosso como se fosse um pus, atirando ao terreiro de galinhas.

Cena triste aquela, o homem com muitos ferimentos por garganta abaixo e alem disso sozinho na vida, começa ali então o findar daquela vida.

         Mas suas aves ainda sim o distraiam.

Já no final do ano dois mil e dez, novamente em crise o senhor Gerson é internado e não volta mais com vida para sua morada.

Havia naquela varanda e por toda a casa, para mais de cinqüenta gaiolas, além dos dois viveiros com as fêmeas.

O separado do quintal com bastante galinha e do outro lado a hortinha de três verduras de folhas.

Passado se dias vem então o dono da casa de animais pegarem os passarinhos e as galinhas, alguém deve de ter vendido a ele, não fiquei sabendo, sei que foi uma loucura sair com tanta gaiola de dentro do casarão.

Mas ao ir pegar à gaiola do canário da terra àquele do moirão, sem querer o rapaz deixa-a cair abrindo se a porta soltando-o, partindo em vôo ao telhado da tapera.

Com o passar dos dias ele arrumou uma nova companheira e continua residindo no velho telhado da casa velha.

         Por varias vezes tentaram pegarem o canário do moirão como ficou chamado, até hoje não conseguiram.

Dois anos se passou após o falecimento do senhor Gerson e o canário do moirão continua aqui na velha morada.

Este ano tomaram a iniciativa de reformar o casarão, modificando completamente, mas o canário não quer nem saber enquanto eles reformam a tapera ele e sua senhora continua voando de antena a antena.

         Mas das quatro às sete da manhã, o canário vai até a janela do quarto aonde o senhor Gerson dormia e abre o canto sem parar.

E ao entardecer o canário canta no barrote da varanda até escurecer isso já faz dois anos, o canário do moirão esta sempre ecoando seu cantar, agora parece que muito triste e todos de minha rua percebem, ainda comentam.

Hoje de manhã mesmo eu ainda deitado ouvia o canto triste do canário e me recordei do senhor Gerson, ali na varanda alimentando o seus.

         Percebi então no canto daquele pássaro que ele também tem saudades e é por isso que seu hino já não é mais alegre, como do mesmo modo.

“Senisio Antonio”

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Um Comentário para: “Canário do Moirão

  1. Não sei porque, mas fiquei com a impressão de que o seu Gerson era mineiro…talvez seja nostalgia, mas o texto me lembra muito os dois anos que vivi em minas…boas lembranças.

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