ALÉM DO HORIZONTE

                                Quando eu dei por mim o ano já tinha passado. Lá no alto, se misturando às estrelas, eu podia ver fogos coloridos de artifício rasgarem o céu, se encontrarem uns com os outros e depois virem morrer no mar. O vento soprava calmo e as águas do oceano emitiam sussurros ininteligíveis, enquanto se despediam do ano velho. No meu peito já ficava uma dor e uma saudade do que eu não havia vivido em 365 dias de uma vida, que agora, ficava para trás. Tirei os sapatos e afundei os meus pés na areia fria da fria praia européia. Portugal havia sido a minha casa naquele ano que agora partia, também havia sido minha casa nos outros três anos que partiram antes. Os anos partiram sem me deixar nada, deixaram apenas eu mesmo, comigo, sozinho, na praia fria européia. Dei alguns passos naquela areia que se recusava a aceitar um estranho caminhando sobre si e fui de encontro ao mar, que tentava me alcançar e depois fugia de mim, divertido e irritante ao mesmo tempo. Subitamente os fogos cessaram e as pessoas que estavam por ali, parecendo tão felizes, desapareceram, como num passe de mágica. Mais uma vez eu estava sozinho… Porém o mar lambeu os  meus pés, ofendido por eu ter me esquecido dele e de suas infantis brincadeiras. Me abaixei e molhei as pontas dos dedos nas águas frias do oceano. Fria, muito fria! Mergulhei por fim as mãos e molhei o rosto gelado com água ainda mais gelada. Tudo parecia frio ao meu redor, mesmo o ano que se aproximava. Ao longe, depois do mar e entre a fumaça deixada pelos fogos, eu avistei a lua e ela me avistou, sei disso porque notei o seu rosto triste ao ver que apenas eu a contemplava, a lua sempre gostou de multidão, de platéia, de admiração. Ela também parecia arrasada por deixar o ano ir embora, mas mesmo assim, continuava linda, em toda a sua plenitude e em seu reinado absoluto sobre a terra. Eram suas últimas horas, antes de ela partir e só regressar na primeira noite de um novo ano. A lua parecia cansada. Cansada e bela. O mar já havia subido até os meus joelhos, irritado por eu ter desviado minha atenção, agora seu sussurro se transformara num rugido estrondoso e bravio. Mirei a lua uma última vez e, calmamente, fui me afastando do mar enquanto ele tentava, em vão, me atrair. Lá longe no horizonte eu vi o novo ano se aproximando, cheio de promessas, de esperança, de sonhos e de realizações pra me ofertar. E, o mais importante, ele sorria pra mim. Olhei pra trás uma última vez e vi que, mesmo que quisesse, não poderia mais alcançar o ano velho que se afastava a passos lentos, mas decididos. Ele me acenou sorridente, eu acenei com tristeza uma última vez. Então, respirei fundo, sorri, e caminhei em direção ao novo ano que me esperava de braços abertos e dizendo: você tem mais 365 dias pra tentar acetar, mas se errar sempre haverá um novo ano de braços abertos pra te receber. E assim, nós seguimos caminhando juntos em direção a algum lugar onde a minha visão não alcançava, pois estava além, muito além do horizonte.

Talvez você goste disso também:

Sobre: francomafra

Olá, acabo de criar um blog sobre assuntos diversos, tais como: moda, sexo, beleza, saúde, curiosidades e música. Ficaria muito feliz se vocês pudessem visitar e, se possível, tornarem-se membros. Abraços.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Solve : *
17 + 28 =


Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>